Guia Prático à Educação: Capítulo 2
Como Trabalhar em Condições de Mudança e Instabilidade
Momentos de emergências - guerras, levantamentos sociais, calamidades naturais, ou pobreza - tendem a minar a motivação, o apoio e a participação dos professores. Devido ao colapso de sistemas administrativos, os professores podem ser obrigados a trabalhar sem pagamento, alguns são perseguidos, e muitos são vítimas de violência. Quando trabalham em turmas muito grandes, os professores podem ter falta de tempo para dar atenção individual aos alunos e podem não ser capazes de disciplinar e gerir efectivamente, sem assistência. Além disso, a dificuldade de ensinar nessas circustâncias é susceptível de ser mais complicada pela escassez de recursos de instrução e facilidades adequadas. Apesar de tais desafios, há acções que se pode tomar para combater as dificuldades e educar com êxito as crianças na sua comunidade.

Os professores podem oferecer uma fundação sólida e firme a uma comunidade em situação de emergência, proporcionando um sentido de continuidade e estabilidade. Eles servem como modelos de papel profissionais e de cuidados de adultos, assumindo responsabilidade pelo bem estar e crescimento das crianças. Os professores têm uma oportunidade singular para construir ambientes sãos, de abrigo e comunitários, e para organizar actividades educacionais para alunos que são geograficamente deslocados e psicologicamente desorientados. Particularmente importante é a criação de substanciais redes de apoio tanto no processo de ensino, como na gestão da escola. Tais redes estabelecem uma atmosfera de colaboração, onde os professores não se sentem profissionalmente isolados e os membros da comunidade reconhecem e apoiam os seus esforços, porque sabem que os professores estão a cumprir com as necessidades da comunidade.

2.1: Participação de Pais e da Comunidade
O diálogo sobre a cultura e o processo de tomar parte na vida social e cultural são direitos humanos reconhecidos. A cultura proporciona às crianças a identidade e continuidade - especialmente importantes em termos de guerra e mudança. Aprendendo os valores e as tradições das suas culturas, as crianças aprendem como enquadrar-se nas suas famílias, suas comunidades e a sociedade em geral. A cultura desenvolve-se e adapta-se constantemente às mudanças no modo de vida da comunidade. Os membros da sociedade devem trabalhar juntos para garantir que a sua cultura seja preservada.

Vários diferentes níveis de participação podem ser definidos. Shaeffer (1994), descreve uma "escada de participação" que leva do envolvimento passivo dos pais e da comunidade, tal como a manipulação e o mero uso de serviço, a actividades participatórias cada vez maiores onde os pais são consultados e, em seguida, eles partilham a tomada de decisões em actividades iniciadas por outros e, por último, decidem sobre actividades iniciadas por eles próprios. Para a população local, incluindo os pais, os professores e a comunidade em geral, a última fase da escada implica assumir a responsabilidade plena na consideração do raciocínio, das implicações e dos potenciais resultados de programas educacionais. Especificamente, isso implica a participação da comunidade nas seguintes fases das actividades de desenvolvimento educacional:

Diagnóstico e definição de problemas;
Recolha e análise de informações;
Articulação de prioridades e definição de metas;
Avaliação de recursos disponíveis;
Decisão sobre e planificação de programas;
Estratégias de implementação e atribuição de responsabilidades entre os participantes;
Gestão de programas;
Avaliação de resultados e do impacto;
Redifinição de problemas gerados para nova acção;
Acompanhamento do progresso.

É importante ter uma ideia geral de quem e a que nível de sistema educacional é envolvido nas tomadas de decisão importantes sobre a natureza e a qualidade de educação proporcionados nas escolas, e o nível ao qual pessoas individuais e grupos fora de turmas se envolvem neste processo. A tabela em baixo pode ser utilizada para realizar uma tal análise (Shaeffer, 1994). Para cada uma das grandes categorias de potenciais parceiros na educação aos níveis das escolas e da comunidade - pais, associações de pais e professores, organizações comunitárias e ONGs - escrevem e discutem que papel ou responsabilidade é que cada parceiro tem na educação. Isto pode ser feito numa reunião aberta da comunidade, numa reunião entre pais e professores, ou em qualquer outro fórum comunitário. Por exemplo, podem discutir as seguintes questões:

Que tipo e nível de envolvimento acontece em cada caso?;
Quais são as áreas potenciais/desejadas de cooperação?;
Quais são os obstáculos a mais participação envolventes?.

Como é que os parceiros podem colaborar:

Colaboração Potencial

Diagnóstico de Condições e Necessidades Educacionais Estabelecer Metas, Políticas e Programas da Escola Estabelecer e Gerir Orçamentos Escolares Determinar o Conteúdo e Conceder Materiais Processo de Ensino e Aprendizagem
Pais
individuais
         
Associações de Pais/Professores          
Organizações Comunitárias          
Empreendimentos de ONGs/Privado          
De: Shaeffer, S. (1994). Parcerias e participação na educação básica, v. I. França: UNESCO, IIEP.

Influência dos País nas Crianças
Os pais são normalmente os primeiros e os mais influentes professores das crianças. Nos seus primeiros anos de vida, os pais ensinam as crianças a língua, os símbolos e os significados utilizados na sua cultura. Os pais, como modelos de papel primários, contribuem significativamente para a aquisição das capacidades dos seus filhos. Por causa das suas funções vitais, é importante que os pais estejam envolvidos nas vidas dos seus filhos, tanto em casa, como na escola. A escola é apenas uma forma de educação, e a educação que a criança

recebe em casa deve ser relacionada à escola para proporcionar continuidade. A participação dos pais ajuda na edificação da comunidade, pois que eles irão sentir que eles têm um papel no sucesso da escola e podem orgulhar-se quando houver êxito. Edifica também laços inter-gerações, na medida em que as crianças e os pais trabalham em conjunto para um objectivo comum (educação básica). Deste modo, as crianças são mais capazes de reconhecer a importância da educação se virem a participação dos pais na sua educação. Através da colaboração, a motivação dos pais e da comunidade para apoiar a educação aumenta.

Influência da Comunidade nas Crianças
Escolas coroadas de êxito são normalmente as que são plenamente apoiadas pelas suas comunidades. Este apoio não significa apenas apoio financeiro. Normalmente, é cometido erro de igualar apoio comunitário a contribuição financeira. Enquanto que a contribuição financeira possa ser uma forma de os membros da comunidade manifestarem e responsabilidade para o bem estar das crianças, não significa que esta seja a única forma. Os membros da comunidade podem assumir responsabilidades, dedicando mais tempo ao estabelecimento e ao reforço de ligações entre actividades escolares e a participação da sociedade.

2.2. Como estabelecer parcerias escola/pais/comunidade
Existem várias formas pelas quais a escola pode abrir-se aos pais e à comunidade. Actividades e organizações específicas podem encorajar os interesses dos pais sobre o que está a acontecer e agir como um primeiro passo necessário ao desenvolvimento de participação maior e mais significativa. Tal como sugerido por Shaeffer (1994), estas podem incluir o seguinte:

Actividades Escola/Pais/Comunidade:
Dias abertos, dias de discursos e dias de desporto;
Explicação aos pais sobre o conteúdo e os métodos de ensino e aprendizagem nas escolas;
Observação dos pais nas turmas;
Formar os pais sobre como melhor ajudar e encorajar a aprendizagem dos seus filhos em casa;
Identificar candidatos para o ensino e assistência na entrevista, selecção, orientação e seu acompanhamento;
Pais assistentes a professores que ajudam os alunos durante o tempo de aulas com tarefas e projectos;
Pais ensinando a comunidade em actividades nas quais são conhecedores e falar da história e da cultura da área.
Pais que constroem e reparam edifícios, terrenos e facilidades da escola.

Receios sobre a segurança das raparigas numa escola podem
ser resolvidos com a constituição de um comité de mães, com uma "mãe a cargo" que visita a escola regularmente para supervisionar a segurança das raparigas.
Considerações do Género
Organizações de Pais/Escola
Esse tipo de organizações têm um alcance para além da imediata comunidade escolar, até os indivíduos mais directamente envolvidos na prestação dos serviços de educação. Por conseguinte, incluem:
Associação dos pais
Associação Pais/Professores

Estas organizações podem ajudar a estabelecer um fórum para diálogo entre a escola e os pais e reforçar o envolvimento desses últimos na vida da escola.

ESTUDO DE CASO: Sistema de Apoio à Aprendizagem dos Pais (PLSS) nas Filipinas.
O reconhecimento de que as famílias, comunidades e escolas contribuem igualmente para o ensino e a aprendizagem das suas crianças, o sistema proporciona uma forma organizada para os pais e os membros da comunidade assumirem funções nos estabelecimentos formais das escolas. Os objectivos do PLSS são os seguintes:
Apoiar e cooperar com os professores para melhorar a capacidade dos alunos em aprender;
Desenvolver valores, atitudes e comportamentos viáveis;
Identificar factores em casa que afectam o desenvolvimento cognitivo e efectivo dos alunos; e
Conduzir discussões regulares em grupo e encorajar tomada de decisões em grupo.

Para implementar um PLSS, os professores formam um grupo focado de pais para organizar actividades. Os pais observam os seus filhos na turma e no recreio; em seguida, programam encontros individuais com o professor. O professor faz visitas às casas. A colaboração é retribuída no fim do ano numa cerimónia durante a qual os pais recebem certificado de participação. Nas Filipinas, resultados iniciais do Programa PLSS demonstraram maior realização cognitiva e efectiva de alunos, melhores relações entre professores e pais, coerência entre o que é ensinado em casa e na escola e minimização de "choque cultural" de novos alunos na escola.

Do: Instituto Internacional para a Planificação de Materiais Didáticos, Parcerias e Participação na Educação Básica, Volume II, Estudo de caso Abstracto, UNESCO 1994).

Organizações Comunitárias
Porque a educação beneficia o conjunto da comunidade, deve envolver todos os sectores da comunidade de forma partilhada e a responsabilidade para as actividades dentro e fora da escola. Tais sectores podem ter diferentes nomes e estruturas. Os seus membros podem ser representantes designados de importantes instituições formais na comunidade, nomeadamente organismos religiosos, o governo local e ONGs, ou membros da comunidade que representam grupos de interesse menos organizados, tais como organizações femininas e sociedades culturais tradicionais. Por exemplo, podem ser sugeridas as seguintes actividades:
Líderes comunitários locais falam para as crianças sobre assuntos da comunidade;
Líderes religiosos falam sobre assuntos religiosos às crianças;
Programas escolares são implementados com benefício à vida social, cultural e económica local "por exemplo, facilidades locais, bibliotecas e materiais disponíveis à comunidade);
Comités educacionais em aldeias (por exemplo, para estabelecer políticas relacionadas ao desenvolvimento do pessoal, relacionamento entre a escola e a comunidade e actividades específicas para o melhoramento de escolas).

Não há regras estritas a seguir quando se envolve os pais e os membros da comunidade no processo da escolarização. Os pais e as comunidades podem começar o seu envolvimento de formas muitos simples, mas à medida em que o seu conhecimento, as suas capacidades e as suas experiências crescem, o seu envolvimento crescerá de forma considerada.

Associações de Professores:
Além de criar organizações de escola/pais/comunidade, os professores podem querer colaborar com outros professores na comunidade através do seguinte:
Agrupamento de escolas - várias escolas, muitas vezes estreitamente relacionadas umas às outras em termos de localização e gomogéneas na sua natureza; e
Organizações de professores, tais como grupos de professores que trabalham juntos em clubes ou associações (Shaeffer, 1994).

Agrupamentos de escolas e organizações de professores de vários tipos podem desempenhar um papel importante em ajudar a ultrapassar o isolamento de professores e escolas, e proporcionar um fórum para a discussão de questões críticas para e a cooperação na solução de problemas.