| Quando eu era criança, o meu livro
favorito era 101 Coisas Para Fazer num Dia Chuvoso. O recurso estava cheio
de todo o tipo de sugestões limpas de jogos e actividades que crianças
habituadas a trabalho de casa podiam fazer quando o tempo mudasse para o
pior. Através de imagens de fácil seguimento de informação,
descrições claramente escritas demonstravam como fazer coisas
tais como barquinhos e outros quadros. Lembro-me ter consultado páginas
nesse manual nos meus anos de adolescentes, mesmo depois da compilação
do livro.
Agora que penso naqueles dias, fico espantado da forma como estava dependente
do 101 Coisas Para Fazer num Dia Chuvoso para poder passar os dias trovejantes.
Foi um "livro de culinária" de actividades divertidas.
Tudo o que tinha a fazer era seguir as instruções e as imagens
no texto para terminar uma invenção, uma retribuição
do meu esforço. Ou, tenho a certeza que alguns rapazes descobriram
formas diferentes do que as sugeridas de trabalhar com as actividades,
e alguns podem mesmo ter encontrado novas retribuições,
inventando coisas que não estavam no texto. Mas a maior parte das
crianças apenas teve divertimento com as actividades à medida
em que iam descrevendo as 315 páginas do manual.
Ainda tenho aquele livro de recurso do dia chuvoso. Está colado
numa caixa de moldura cheia de papeis antigos e textos no meu escritório
do colégio. Tinha acabado de começar a vasculhar as gavetas,
quando uma aluna apareceu à porta do meu escritório. Ela
tinha faltar as minhas últimas poucas aulas de ciência do
semestre, e queria saber os números das páginas do livro
que correspondiam ao material coberto nas aulas. Perguntei-a se queria
fazer uma revisão de todo o material, mas ela achou que não
precisava, porque o texto do livro estava cheio de mapas, imagens e descrições
claras do conteúdo que apresento na turma. Ela tinha a certeza
de que podia obter a informação que precisava a partir do
livro. Puxei o texto que se encontrava ao lado da minha mesa, apresentei
o conteúdo à frente, e informei-a os capítulos e
os números das páginas que tínhamos coberto na sua
ausência. Ela agradeceu-me pelo apoio e saíu para se juntar
aos colegas que se encontravam na sala.
Sentei-me lá durante um ou dois minutos, pensando no que a aluna
havia dito. Teria ela descoberto o que precisava directamente do texto?
Não desempenhei um papel maior na aprendizagem do aluno do que
a disseminação de informações que podiam apenas
ser fáceis de obter a partir do livro? Dou uma vista de olhos às
páginas vivamente coloridas do recurso, com os seus gráficos
luzidos e esplêndidas fotografias. Tudo estava lá! Todo o
conteúdo que um aluno devia saber para ser recompensado com uma
nota positiva no meu curso. Tudo o que fiz na turma foi apresentar o mesmo
conteúdo no manual, utilizando retroprojector e um ou dois slides
ocasionais. Foi apenas uma extensão do manual em si. Petrificado,
apenas vi-me olhando para a versão da ciência do meu livro
de infância, 101 Coisas pata Fazer num Dia Chuvoso.
Isso foi acompanhado com a realização de que o método
de instrução mais frequentemente aplicado pelos professores
no ensino da ciência nos colégios e nas universidades de hoje,
é o mesmo que eu utilizei no meu livro do dia chuvoso. Para muitos
dos nossos cursos, o que o aluno deve fazer é recitar as direcções
no texto, ou falar num teste para acabar com a recompensa de passar nos
nossos cursos. Não devem os professores excitar os alunos a pensarem
para além das descrições contidas nos seus textos?
Não devemos encorajar os alunos a olharem criticamente para o conteúdo,
ou ampliar o seu pensamento para outras actividades? Estaremos a sublinhar
todos os factos contidos num curso em que os alunos não conseguem
captar a imagem geral?
Penso que, hoje, uma das grandes facetas na educação, é
a convicção de que a recitação e regurgitação
do conteúdo confirma a compreensão e o entendimento do mesmo.
Se um aluno escrever um texto no material do curso e passar alguns testes
na disciplina, nós compensámo-lo com uma nota positiva para
o nosso curso. O extraordinário é que dezenas de estudos
provam que a maior parte dos alunos de colégios retêm grandes
maus conceitos e entendimento limitado sobre a disciplina depois de terem
passado com êxito o curso, algumas vezes com A+ (Kyle & Shyrnansky,
1989; Perkins, 19C3; Lorsbach, Tobin, Briscoe, & LaMaster, 1995).
Numa tentativa para explicar os porquês dessa ocorrência,
teóricos educacionais viraram a sua atenção para
como uma pessoa ganha realmente novos conhecimentos. Esta iniciativa levou
vários académicos a questionarem o conceito do comportamento
da aprendizagem, a filosofia de "tentar e verdade" da educação
que, durante décadas, formou a espinha dorsal da instrução
da ciência a todos os níveis.
O modelo de comportamento da educação científica
defende que o trabalho do professor é o de apresentar estímulo
e reforço que requer que os alunos respondam de forma específica.
Durante anos, as pessoas encaravam a ciência como uma forma de descobrir
a verdade, e a verdade era baseada no conteúdo real em jornais
e livros. Por causa disso, os alunos eram ensinados a encarar a ciência
de forma objectiva, ao invés de imaginação de compreensão.
Como resultado, os professores planificavam as aulas sobre ciência
com base nos factos que encontravam nos manuais e noutros recursos, e
avaliavam os alunos quanto à sua capacidade de repetir a informação.
Quando a avaliação de conhecimento de um aluno é
baseada na memorização rotineira e reiteração
do conteúdo, muitos comportam-se bem. Se o objectivo do ensino
da ciência é o de fazer com que os alunos repliquem informações,
então a convicção do comportamento do ensino funciona
perfeitamente. Todavia, se o objectivo do ensino da ciência for
o de envolver os alunos que compreendem o que é realmente o conteúdo
factual, e são capazes de aplicar este novo conhecimento para novas
situações, então o modelo comportamentalista do ensino
não pode atingir esta meta (Yaser, 1991).
Reconhecendo que os antigos métodos de ensino não estão
a produzir um verdadeiro entendimento, os educadores começam a
examinar o que está realmente envolvido na realização
do conhecimento. Isso levou à compreensão de que o conhecimento
não é algo que reside fora do corpo de uma pessoa. Ao invés,
a conceitualização reside no interior da pessoa. Um conhecimento
real não é ganho por alunos que lêem passivamente
os parágrafos de um texto, olhando para gráficos e imagens,
assistindo vídeos ou televisão, ou ouvindo a recitação
de informações por apresentadores. Os alunos devem prosseguir
activamente o pensamento. Para adquirir novos conhecimentos, eles devem
despender energia para permitir que a nova informação faça
inter-acção com as noções já conseguidas.
Se alguém. Aceitar esta noção de aquisição
de conhecimento, essa pessoas irá apreciar a filosofia de aprendizagem,
chamada construtivismo. Os construtivistas acreditam que o aprendiz utiliza
a energia mental para construir novos conhecimentos sobre as fundações
de inteligência anterior (Glasersfeld, 1989).
Depois de os alunos assimilarem devidamente novos conhecimentos, eles conseguem
compreender realmente as questões. Quando isso acontecer, a pessoa
esclarecida pode facilmente explicar o que aprendeu aos outros. Na verdade,
intercâmbios verbais e escritos com os colegas são importantes
no processo de aprendizagem. Tentando explicar o que uma pessoa sabe a uma
outra pessoa, o explicador testa a capacidade desta última de compreensão
da sua matéria (Lorsbach & Tobin, 1993). De igual modo, ao tentar
compreender o que alguém está a dizer, os ouvintes activos
questionam e desafiam a sua própria compreensão e tentam enquadrar
a informação nos fundamentos cognitivos já estabelecidos
neles.
Os construtivistas acreditam que na aquisição de conhecimento,
as energias mentais são aplicadas tanto pelo fornecedor, como pelo
receptor. Numa tradicional sala de aulas dirigida pelo professor, a energia
mental é geralmente despendida pelo professor (o fornecedor) durante
a aula inteira. Todavia, o gasto da energia cognitiva pelo aluno (o receptor),
que o permite construir o novo conhecimento sobre os fundamentos antigos,
raramente excede 10 a 12 minutos consecutivos.
Numa turma baseada no construtivismo, centrada no aluno, a energia cognitiva
dos alunos continua a ter lugar durante a maior parte da aula. A energia
mental do professor também permanece alta ao longo de toda a aula,
à medida em que vai ajudando grupos de alunos na sua tentativa
de construírem novos conhecimentos. Esta vitalidade dirigida conceitualmente
nos alunos, leva a um maior interesse e entusiasmo pela disciplina. O
aumento da fascinação do aluno pela disciplina, reforça
os esforços do instrutor e leva a um ensino mais produtivo e divertido.
O resultado final é todo um ambiente de aprendizagem que promove
a curiosidade, o pensamento crítico e a retenção
duradoura do conhecimento.
LITERATURA CITADA
Glasersfeld, E. Von (1989). Cognição, construção
de conhecimento e ensino.
Síntese 80, 121-140.
Kyle W. &J. Shymansky (1989). Estimular a aprendizagem através
da mudança conceptual. NARST News, 31,(3): 7-8.
Lorsbach, A. & K. Tobin (1993). Construtivismo como referência
para o ensino da ciência, NARST News, 34(3) 9-11.
Lorsbach, A. & K. Tobin, C. Briscoe, & S LaMaster (1995). Uma
interpretação do método de avaliação
na ciência do ensino secundário, jornal internacional da
Educação da Ciência, in press.
Perkins, D. (1993). Ensinar para a compreensão, o Educador Americano,
17(3): 2835.
Yager R. (1991). O modelo de aprendizagem construtivista: Rumo a uma
reforma real na educação da ciência. O Professor da
Ciência, 53-57, Setembro.
AUTOR: Thomas R. Lord.
THOMAS R. LORD, um professor no Departamento de Biologia da Universidade
Indiana de Pennsylvania, obteve o seu bacharelato e doutoramento da Universidade
Rutgers e o seu mestrado do Colégio de New Jersey. Ele ensinou a
ciência no liceu e a disciplina principal da ciência durante
30 anos, e é um contribuinte activo à disciplina, através
de apresentações e publicações profissionais.
FONTE: Educação Contemporânea
69 no3 134-6 mSetembro/98. O publicador da revista é detentor dos
direitos de autor deste artigo que é reproduzido com permissão.
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