Ensinar a Ciência Cooperativamente na Escola Média/Superior
AS COISAS mudaram muito desde que vários de nós fomos educados a ensinar a ciência em aulas médias ou do ensino superior. Porquê? Porque o mundo está agora mais em "mão à obra", o que produz "mãos nas crianças".

Ao longo dos últimos 20 anos, os profissionais educacionais tiveram que modificar a sua metodologia "tradicional" para satisfazer as necessidades americanas em transformação nos alunos. As aulas de ciência, particularmente, estão a desenvolver-se cada vez mais da abordagem passiva para a activa, através de notas, manuais e textos estruturados estão a ser substituídos gradualmente por investigação de equipas laboratoriais.

Os adolescentes americanos inter-agem fisicamente com o seu mundo. A maior parte deles não lêem livros para conhecimento ou entretenimento. Ao invés, eles fazem ligação à Internet logo que regressam da escola, ou inter-agem no cyberspace com o último herói de jogos de vídeo.

Eles praticam todo o desporto "fechado" e organizam-se em grupos que se cercam em viaturas de tracção a quatro rodas. Os jornais selvagens sobre MTV, violência caótica das tardes de conversas e o último filme sobre desastre, proporcionam ainda mais estímulo.

Assim, o que acontece a esses rapazes da década de 90 quando se vêem perante uma aula de ciência "tradicionalmente" da década de 50. Alguns rapazes orientados ao objectivo, tomam nota meticulosamente e lêem todas as páginas dos seus manuais cansativos que lhe for dado como trabalho, porque sabem quão importantes são os valores quando estiverem a enfrentar os pais na altura da apresentação de relatórios, ou quando estiverem a tentar entrar num bom colégio.

Isso não obstante, muitos mais que encontram dificuldades em se disciplinarem em "lápis e papel", passam por palestras tediosas, manuais difíceis, põe de lado perguntas cansativas no fim de cada capítulo e, por último, reprovam em testes altamente estruturados com classificações muito bem afinados. Estas são as crianças que inspiraram o conceito de ensino "cooperativo" ou "mão à educação", que já está a funcionar muito bem em várias turmas do ensino médio e superior.

Todos os professores da ciência devem reconhecer que o ensino no novo milénio irá requerer muito mais deles. Eles têm que se tornarem adeptos do ensino "comparativo" porque o mundo da educação, que uma vez foi centrado no professor, passou agora a centrar-se no aluno. O professor, que costumava ser infinito, passou a ser finito e, presentemente, deve responder não só perante o director, mas também perante os pais e alunos cada vez mais vocais e desgostosos.

Para os professores da ciência no novo milénio, isto significa uma adaptação e reeducação nas técnicas de ensino de alta qualidade. Se eles tiverem que reter o seu actual estatuto profissional, podem lançar-se neste mundo bravo, novo e informatizado com a avidez de um professor aprendiz que acredita que pode fazer tudo isso.

Infelizmente, vários professores de ciência do ensino médio e superior já estão intimidados pela sua profissão em transformação drástica. Aliás, alguns ou não acreditam na validade do ensino "cooperativo", ou não acreditam que eles podem adquirir conhecimentos capazes de ensinar efectivamente uma turma "cooperativa".

Outros pura e simplesmente não querem fazer esforços para mudar a sua mentalidade, a sua metodologia e o seu ambiente físico por forma a incluir a abordagem "mão ao ensino" ao currículo da ciência. Estes ganham a consciência de que um profundo amor pela aprendizagem implica muito trabalho e uma verdadeira flexibilidade para passar do "chefe da turma" para "mentor" de equipas de alunos. Esses professores não estão convencidos de que a abordagem de "equipa" realmente estimula os alunos individuais em termos da sua auto-estima, juntamente com a ilustração de que os conceitos da ciência suplantam em grande medida os pormenores.

Vários directores também não conseguem desligar-se dos anos cinquenta, acreditando que os instrumentos de ensino devem ser deixados totalmente nas mãos de cada professor individual. Eles nunca deixam de considerar que, sem a actualização frequente das técnicas de ensino, mesmo os melhores professores perdem as suas habilidades.

Isso não obstante, apesar de toda a oposição aos educadores "tradicionais" a aprendizagem "cooperativa" está a abrir o caminho científico do futuro. Cada vez mais os estudos da retenção de aprendizagem apontam para a abordagem "mãos ao ensino", como sendo o meio mais eficaz de obter e atrair atenção dos alunos, ensinando conceitos individuais e capacidades, e reservando conhecimentos que serão recordados e utilizados pela maior parte dos alunos durante toda a sua vida.

Os professores do novo milénio, assim, devem permitir que os seus alunos pensem, escutam, façam experiências e que debatam a validade das suas conclusões que tiverem que ser educadores efectivos.

O QUE É: O que é a ciência "cooperativa" ou "mãos ao ensino"? A melhor forma para determinar o que é isso, é a de analisar como ela funciona na turma.

A Sra. Connors é uma professora de biologia da terceira classe que estava fascinada pelo conceito de educação cooperativa nos seus cursos liceais. Ela era uma daquelas alunas de biologia que desprezavam a memorização e a regurgitação de factos para "ganhar um bom nível". Consequentemente, quando ela passou a ser professora de biologia, mudou as regras.

No princípio de cada semestre, ela informa aos seus alunos que será mentora e não mestre. Todos os olhos na sua sala de aulas viram repentinamente para ela. Mesmo os aldrabões e os malandros da turma ouvem à medida em que ela apresenta os passos do seu método científico e pede a turma para se dividir em grupos de três alunos que são capazes de trabalhar bem em conjunto.

Ninguém se mexe por alguns segundos, mas no fim os alunos reorganizam-se em pequenos grupos nas mesas de laboratórios no momento em que ela apresenta a seguinte frase: "Sementes, e não pedra, germinam e crescem". Depois de algum momento de silêncio, ela pede que as suas equipas pensem sobre esta declaração, que a discutam e, em seguida, apresentem um problema que podem investigar para testar a sua validade.

Ela assiste os seus alunos à medida em que estes trocam olhares duvidosos. Eles nunca tiveram que resolver um problema por si sós, muito menos produzir um problema semelhante.

Neste momento, a Sra. Connors sugere que organizem os seus esforços, elegendo um líder de equipa que irá coordenar os esforços do seu grupo e servir de ligação entre ela e o mesmo grupo. Eles fazem exactamente isso.

Em seguida, ela sugere que o líder da equipa atribua tarefas individuais (tais como desenvolver um problema ou decidir como criar um prosseguimento escrito e apresentar os seus dados) a cada membro do grupo. Ela enfatiza que os passos do método científico devem orientar os seus próprios passos.

De repente, os cérebros começam a funcionar e surgem ideias de toda a turma, à medida em que cada membro das equipas passa a ser um importante instrumento numa máquina em funcionamento. O líder da equipa ajuda o seu clube a consolidar o seu problema e, depois, leva-o à professora para aprovação e assinatura.

Depois de obter o sim da Sra. Connors, o grupo começa a adiantar uma resposta ao seus problema e discute os métodos do procedimento que utilizaram e os instrumentos de registo de dados que planificaram para resolver o problema. Quando tiverem refinado o seu relatório, eles obtêm mais uma vez a assinatura da Sra. Connors. Isto permite-lhes levar a cabo a sua experiência numa situação laboratorial.

Cada aluno de cada grupo laboratorial sente-se capacitado quando o verdadeiro trabalho se iniciar. Elementos individuais do grupo escolhem as tarefas a serem realizadas no processo da experiência e acordam em documentar os resultados das suas tarefas no relatório laboratorial final.

A pressão de colegas passa a sim a ser factor motivador por detrás do rendimento, à medida em que a Sra. Connors dá aos elementos do grupo o direito de eliminar um membro não cooperativo do seu grupo. Esta retirada pelos colegas convence, brevemente, um trabalhador a adaptar-se ou arriscar fazer a experiência sozinho.

Quando a experiência tiver sido concluída, o líder da equipa submete o relatório laboratorial do grupo já compilado, afinado e dactilografado em computador à Sra. Connors. Ela examina o relatório para a aplicação correcta do método científico, bem como para investigação e informação de dados correctos. Ela verifica se cada conclusão de cada relatório dos grupos reflecte uma abordagem lógica à aplicação de dados válidos para resolver o problema proposto pelo grupo.

Por último, ela classifica os grupos individuais, não de acordo com a escala percentual rígida "tradicional", mas segundo a criatividade dos grupos, sua investigação e raciocínio abstracto e, por último, a sua capacidade de coordenar tarefas, Todos os membros de equipa recebem as mesma classificação do seu relatório laboratorial, e alunos individuais são sempre encorajados a mudarem de equipas se não estiverem satisfeitos com o seu grupo laboratorial original.

Na sua agenda, a Sra. Connors garante que as crianças se sintam confortáveis, importantes e responsáveis. Embora não haja um "teste" formal no fim de uma secção de aprendizagem "cooperativa", todos os membros de cada equipa terão aprendido muito.

Como é que a Sra. Connors pode assegurar-se disso? Talvez comparando as suas experiências de equipas laboratoriais à aprendizagem de uma habilidade como montar uma bicicleta. Não há nenhuma memorização ou regurgitação de regras associadas com o ser capaz de saltar para uma bicicleta, ganhar equilíbrio e montar. Tentativas, erros e, por último, sucesso, imprime a capacidade que nunca se esquece de montar uma bicicleta na mente do ciclista.

PARA ALÉM DO LABORATÓRIO: Como é que a aprendizagem cooperativa pode ir além da situação laboratorial numa aula de ciência? Alguns grupos de alunos que estão desejosos de cooperar um com outro, podem formar módulos numa sala se aulas de ciência e trabalhar juntos em torno de questões atribuídas ou projectos de estudo em grupo. As equipas podem estudar juntas para testes e funcionar como uma unidade em exercícios orais administrados por professores. Os grupos podem competir com outros da sua turma nas sessões de aprendizagem moldadas no formato de jogos "fiasco", onde o professor faz perguntas, selecciona as melhores respostas e, mais uma vez, classifica a equipa de trabalho enquanto uma unidade.

Pequenos grupos de alunos da ciência podem também investigar tópicos em conjunto na Biblioteca da escola, no computador ou na Internet. Eles podem apresentar a sua investigação sob a forma de um relatório ou trabalho de grupo na aula, com os seus parceiros, no estudo de vocabulário e na delineação dos conceitos. Equipas de alunos podem constituir testes de unidade da ciência para trocar com outras equipas na altura da revisão em preparação dos testes, ou para o exame final.

À medida em que as equipas trabalham juntas, "o currículo transversal" irá ocorrer naturalmente. Os alunos com talentos especiais na escrita, soletração, cálculo e conhecimento de computador, matemática, pensamento lógico e organização, irão partilhar esses conhecimentos com outros elementos da sua equipa no processo da conclusão de uma tarefa.

E porquê tanto barulho? É entusiástico, produtivo e controlado a partir do interior, ao invés do exterior. É um marco de que o ensino cooperativo está realmente a funcionar numa aula de ciência. Talvez a habilidade mais importante aprendida numa aula cooperativa, seja a cooperação. Muitas crianças não pertencem a uma família realmente cooperativa e funcional na nossa sociedade de alta tecnologia e materialística. Elas não têm a experiência de pertencer e trabalhar num grupo pequeno, seguro e rígido, e desta forma perdem o sentido de auto-estima que acompanha o bem-estar de um membro funcional de uma equipa coroada de êxito.

RELACIONAR-SE COM OUTRAS CRIANÇAS: A aprendizagem cooperativa ajuda as crianças a relacionarem-se com as outras e proporciona a cada aluno a capacidade para ganhar a auto-estima entre colegas, ao mesmo tempo que ensina lições importantes sobre como trabalhar cooperativamente com outros, para realizar um objectivo. O mundo que foi criado pelas equipas numa aula de ciência, irá então transformar-se num modelo micro-cósmico para o mundo de trabalho, aquele que elementos individuais dessas equipas irão realmente entrar depois do seu ensino formal.

Sempre haverá livros que deverão ser lidos, problemas matemáticos que devem ser resolvidos, palestras para as quais haverá a necessidade de se tomar notas, trabalho de casa individual que deve ser entregue, e mesmo factos que devem ser memorizados para testes escritos que devem ser feitos. Certos conceitos científicos simplesmente não podem ser investigados, e o resultado disso é de que a abordagem tradicional ao ensino da ciência continuará a ser um instrumento útil na aula.

Isso não obstante, até que os professores americanos dêem espaço nas suas aula de ciência ao ensino cooperativo e julguem o rendimento dos alunos não só verificando trabalho escrito, muitas vezes testes antigos e fazendo exactidão de escalas de classificação; até que os educadores americanos acreditem que as crianças, quando lhes for proporcionada uma situação de aula mais "aberta", serão inspirados e não aldrabam; até que os professores americanos abordem o ensino de forma actualizada e positiva; até que tudo isso tenha lugar, nós não podemos esperar que os alunos americanos realizarão o seu potencial pleno e serem competitivos formidáveis num mundo cada vez mais amplo que lhes espera no próximo milénio.

AUTOR: Carol MacGraw
Carol MacGraw ensinou em Detroit, Michigan, durante 28 anos e, neste momento, ensina a ciência na Notre Dame Preparatory School, Pontiac, Michigan. Ela pode ser contactada através do seguinte endereço: 5400 Breeze Hill Place, Troy, MI 48098.

FONTE: The Education Digest 64 no9 29 -33, Maio/99. O publicador da revista é detentor dos direitos de propriedade deste artigo, e o mesmo é produzido com permissão.