| As razões da instrução
da ciência são normalmente afirmadas em termos de objectivos
cognitivos: Ajudar as crianças a desenvolverem a capacidade de resolver
problemas; Engajar-se nos processos, nos inquéritos, na exploração
e na descoberta; Desenvolver abilidades na observação, verificação,
hipotização e raciocínio; e Ganhar conhecimentos e
informação científicos. Quando consideramos o pensamento
de Einstein sobre a instrução da ciência, todavia, torna-se
claro que ele acreditava que os fundamentos da ciência residiam no
afecto (emoção). Ele pega um lado da ciência que reside
no campo afectivo da curiosidade e do divertimento. Einstein, o intelectual
perfeito, desafiou educadores a promoverem o lado afectivo da ciência,
ou então arriscou o estrangulamento do processo científico.
Um caso para o "lado afectivo da instrução da ciência"
começa com a nossa conceitualização da aprendizagem.
Com o advento do comportamentismo Skinner, a teoria da aprendizagem passou
a ser dominada por "o que pode ser observado" na aprendizagem.
Porque a emoção é mais difícil de observar
e documentar, foi ignorado ou relegado à periferia do processo
da aprendizagem. Porém, Piaget (1967), consolida sabiamente a aprendizagem
humana num "conjunto" sólido tanto do afecto, como da
cognição. Isto contradiz o paradigma tradicional da aprendizagem,
que incide essencialmente no lado cognitivo. Piaget, conhecido pela sua
teoria cognitiva de aprendizagem, não promove a cognição
na ausência do afecto. Ao invés, ele visiona a aprendizagem
como um processo inter-activo do afecto e da cognição. A
cognição e o afecto são co-construídos por
inter-acção constante entre os dois; Os dois não
podem ser considerados separadamente no processo de aprendizagem (Bearison
& Zimiles, 1986; Piaget, 1967).
No quadro deste processo inter-activo, as emoções levam-nos
a estabelecer relacionamento com o nosso meio ambiente. Zimiles (1981)
sugere que o sistema afectivo não é uma condição
necessária para a aprendizagem, uma força motriz independente,
mas sim um elemento inter-activo que, além de instalar o processo
de aprendizagem, contribui ao seu âmbito e à sua natureza,
orientando e monitorizando o desempenho cognitivo (p. 52).
O interesse dirige e organiza a actividade cognitiva de assimilação
(Langsdorf, Izard, Rayias & Hembree, 1983). Bearison e Zimiles (1986)
sugerem que "sem afecto não haveria qualquer interesse, necessidade,
ou motivação; e consequentemente, não haveria nenhuma
inteligência" (p. 3). Do ponto de vista Piagense, o lado afectivo
da assimilação está o interesse, enquanto que o lado
cognito é a compreensão (Langsdorf et al., 1983; Piaget,
1967).
Carson (1960) faz notar que "primeiro é estimulada a emoção;
as emoções servem de catalizador na busca de conhecimento.
Uma vez encontrada, a informação tem significado duradouro"
(p. 45). Todavia, quando as "emoções (associadas a
um acontecimento) são iniciadas, as memórias do acontecimento
são menos duraveis" (Restak, 1979, p. 19). Isto é,
nós lembramo-nos do que compreendemos, e a nossa capacidade de
dominar a compreensão depende da nossa motivação
e do nosso interesse.
Harlan (1988) caracteriza a ciência como o desejo humano de compreender
o mundo e como o mesmo é organizado. É a curiosidade e o desejo
de compreender que motivam a pessoa a procurar conhecimento. Assim, o génio
científico não se desenvolve a apartir de lições
prescritas com objectivos definidos; acontece quando a curiosidade e a paixão
pela descoberta são cultivadas.
Consideramos, por exemplo, as palavras de Richard Feynman, Nobel de Física.
Ele combinou o desejo e o divertimento como a motivação
para a sua linha da ciência da física.
Porque eu gostava de fazê-la [física]? Eu costumava brincar
com ela. Costumava fazer o que me apetecesse fazer. Não tinha nada
a ver com o facto de ser importante para o desenvolvimento da física
nuclear mas, ao invés, se para mim era interessante ou divertido...
eu inventava coisas com que brincava, para meu próprio divertimento...
[uma vez] estive na cantina quando um fulano, numa brincadeira de mau
gusto, atira-me um prato pelo ar. À medida em que o prato ia subindo,
eu vi-o oscilar e verifiquei o emblema vermelho de Cornell [universidade]
no prato a girar. Para mim, estava bem claro que a medalha girava mais
rápido que a oscilação
Eu não tinha nada a fazer e, portanto, comecei a imaginar a moção
do prato em rotação. Descobri que quando o ângulo
é muito pequeno, a medalha gira duas vezes mais rápido do
que a wobble: duas a uma. Apresentou-me como uma equação
complicada! Eu não me lembro de como o fiz mas, em definitivo,
concebi o que a moção das partículas de massa é,
e como todas as acelerações se equilibram para que o resultado
final fosse de "duas para uma". Ainda me lembro de ter ouvido
Hans Bethe dizer-me, "Hey, Feynman, isso é muito interessante,
mas qual é a sua importância? Porque estás a fazê-lo?"
Hah, disse eu. Não tem qualquer importância ou que quer
que seja. Estou a fazê-lo só por fazer. A reacção
dele não me desencorajou. Tinha tomado a minha decisão.
Eu ía divertir-me com a física e faria o que quisesse...
Os diagramas e tudo o que me levou a ganhar o prémio Nobel, vieram
do que fiz com o prato wobbling (Feynman, 1985, p. 173 - 174).
A curiosidade, o desejo e o divertimento do Feynman levaram-no a procurar
conhecimento no domínio da física /Harlan, 1988). Sem afecto,
Feynman não iria engajar-se no processo científico da descoberta
que, em última análise, lhe proporcionou o Prémio
Nobel. Este não é um exemplo obscuro de aventura de um cientista
em novo conhecimento; em vez disso, a experiência de Feynman reflecte
o processo "inteiro" de aprendizagem, a inter-acção
do afecto e cognição.
Ao abordar métodos de instrução da ciência,
devemos fornecer experiência de aprendizagem que incluem tanto o
afecto, como a cognição. O professor da turma deve considerar
três áreas críticas:
*O ambiente Afectivo. O proporcionamento de um ambiente rico que encoraje
experiências práticas (i.e. centros, projectos) é
uma componente necessária de aprendizagem activa, cognitiva. O
professor conhecedor, todavia, deve também criar o ambiente afectivo,
que inter-age com a aprendizagem cognitiva.
Em primeiro lugar, o ambiente afectivo deve ser "livre de riscos"
para que as crianças tenham a oportunidade para explorar, experimentar
e resolver problemas sem o receio de fracasso. O jogo cria um ambiente
natural livre de risco. Oportunidades para jogo livre com material de
ciência promovem a curiosidade das crianças e entrega para
considerarem uma variedade de opções (Henniger, 1988). Wassermann
(1929) observa que no jogo, não há receio de fracasso, porque
não há fracasso. O fracasso ocorre quando as crianças
não tiverem estado à altura das noções pré-concebidas
das outras, quanto ao que deviam ter feito. No jogo, não são
articulados os padrões do que é certo ou errado, e a ausência
de tais padrões é que dá lugar à inovação
(p. 135).
Em segundo lugar, o ambiente afectivo é agradável. Como
Feynman fez notar, ele "divertia-se" brincando com problemas
de física. O ambiente afectivo que nutre o agrado, permite as crianças
criar, inventar e procurar soluções.
Em terceiro lugar, o ambiente afectivo elimina o stress das dificuldades
de tempo. As crianças devem ser capazes de brincar livremente com
materiais de ciência, sem um estrito prazo para terminar, completar
ou tirar conclusões. O tempo limite deve ser adequado para que
as crianças se sintam livres para explorarem diferentes soluções,
ou para criarem cenários múltiplos.
Em quarto lugar, o ambiente afectivo dá lugar à escolha,
que é uma expressão do interesse do afecto, e é parte
integrante do "desejo de conhecer". As crianças farão
as suas próprias descobertas durante o jogo livre com material
da ciência da sua escolha, e constituirão o seu próprio
conhecimento de um fenómeno. De igual modo, e através da
escolha, as crianças assumem propriedade do processo, ao invés
de se sentirem arrastadas ou obrigadas a explorar (Einstein, 1954).
* A Criança Afectiva. O professor deve compreender e apoiar o
afecto da criança sabendo que "as emoções estão
constantemente activas no funcionamento do pensamento" (Izard, 1986).
O afecto de uma criança terá implicações positivas
ou negativas sobre o seu desejo de conhecer.
Primeiro, o professor deve apoiar a autonomia da criança. As crianças
autónomas exploram livremente os seus interesses na aprendizagem
auto-orientada, enquanto que as crianças que são controladas
por adultos são menos susceptíveis de dar seguimento adequado
à sua curiosidade, ou de confiar nos seus próprios esforços
para a solução de problemas.
Em segundo lugar, o professor deve compreender o papel da auto-confiança
e da auto-estima. A criança que confia em si própria, prosseguirá
um problema, enquanto que a criança insegura não o fará.
Uma criança com fraca auto-confiança pode entrar num estado
de "desespero retirando-se assim de uma experiência ou de uma
situação de solução de problemas.
As crianças com auto-estima positiva enfrentam o risco porque
vêem em si próprias indivíduos competentes. Elas são
mais aptas em explorar e engajar-se em experiências na solução
de problemas, são menos ansiosas, concentram-se mais, passam mais
tempo na tarefa de uma diversão, atendem a elementos críticos
de um problema, são mais expontâneas e são mais capazes
de prosseguir e gerar soluções múltiplas a problemas
(Fenn & Iwanicki, 1986; Flynn, 1984). A auto-estima relacionada à
ciência devia resultar numa criança a afirmar, "sou
um cientista", em vez de "não sou bom na ciência".
Em terceiro lugar, o professor deve promover o sucesso de cada criança.
Os sentimentos de êxito e de fracasso podem, respectivamente, facilitar
ou inibir a aprendizagem (Izard, 1986).
As crianças que aspiram sucesso vão procurar resolver problemas
cada vez mais difíceis, porque, naturalmente, prosseguem problemas
que pensam que são capazes de resolver. A criança terá
maior oportunidade para êxito numa exploração de jogo
livre e em actividades abertas de ciência, do que quando estiver
a tentar resolver uma experiência com apenas uma resposta. A ansiedade,
o receio do fracasso e o desespero apreendido, enquadram-se num currículo
de ciência que apenas aceita uma única resposta correcta
e no qual toda a experiência é concebida pelo professor.
Para permitir a inter-acção do afecto de uma criança
com a cognição, o professor deve dar-lhe maior liberdade
para explorar, escolher os problemas que pretende resolver, tentar novas
vias de fazer as coisas, experimentar êxito e ter suficiente tempo
para a sua mente e as suas emoções gozarem o processo da
descoberta.
A concluir, os professores devem considerar a paixão interior
para descobrir e o desejo de compreender na concepção de
instruções da ciência. Num ambiente emocionalmente
seguro e estimulador, as crianças manifestarão livremente
as suas paixões para descobrir e compreender. Nós devemos
assegurar e apoiar o desenvolvimento afectivo de toda a criança
ao longo do seu desenvolvimento cognitivo. Não podemos abordar
o lado cognitivo da ciência sem adequadamente promover também
o lado afectivo. Caso contrário, estaremos a cometer um erro verdadeiramente
grave (Einstein, 1954). Material adicional.
REFERÊNCIAS
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Fenn, L. M., & Iwanicki, E. F. (1986). An investigation of the relationship
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more and less affective school settings. Journal of Research and Development
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Feynman, R. (1985). Surely you're joking Mr. Feynman. New York: Norton.
Flynn, T. M. (1984). Affective characteristics that predict preschool
achievement in disadvantaged children. Early Childhood Development and
Care, 16, 251-256.
Harlan, J. D. (1988). Science experiences for the early childhood years
(4th ed.). Columbus, OH: Merrill.
Henniger, M. L. (1988). Learning mathematics and science through play.
In J. P. Bauch (Ed.), Early childhood education in the schools. Washington,
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Izard, C. (1986). Approaches to developmental research on emotion-cognition
relationships. In D. J. Bearison & H. Zimiles (Eds.), Thought and
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Langsdorf, P., Izard, D. E., Rayias, M., & Hembree, E. A. (1983).
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Restak, R. (1979). The brain: The last frontier. New York: Doubleday.
Rivkin, M. (1992). Science is a way of life. Young Children, 47(4), 4-8.
Wassermann, S. (1992). Serious play in the classroom. Childhood Education,
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Zimiles, H. (1981). Cognitive-affective interaction: A concept that exceeds
the researcher's grasp. In E. K. Shapiro & E. Weber (Eds.), Cognitive
and affective growth: Developmental interaction (pp. 47-63). Hillsdale,
NJ: Erlbaum.
AUTOR: SANDRA J. STONE E KATHLEEN
GLASCOTT
FONTE: Educação Infantil
v74 p102-4 Inverno de 97-98. O publicador da revista é o detentor
dos direitos de autor deste artigo que é produzido com autorização.
WBN: 9701503906008.
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